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Currículo em movimento: o carnaval como tempo pedagógico na Educação do Campo


Imagem criada com IA
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O carnaval não nasce pronto, nem é apenas festa. Sua origem remonta a celebrações antigas ligadas aos ciclos da natureza, aos rituais agrários e aos momentos de inversão simbólica das hierarquias sociais. Desde suas formas mais antigas, foi tempo de transição: pausa no trabalho, celebração da colheita, riso que subverte a ordem e corpo que ocupa o espaço público.


No Brasil, ao se entrelaçar com heranças africanas e indígenas, o carnaval se torna espaço de resistência cultural, invenção estética e afirmação coletiva. Nas comunidades rurais de Pernambuco, ele assume contornos próprios, profundamente ligados à vida no território.


Quando o maracatu rural — ou maracatu de baque solto — atravessa as estradas da Zona da Mata, o caboclo de lança não carrega apenas uma fantasia bordada. Ele carrega história, trabalho e pertencimento. Seu corpo ornamentado é memória viva das relações com o canavial, das permanências negras no campo e das formas de organização comunitária que atravessam gerações. O coco de roda, entoado na beira da estrada, nasce da cadência, da oralidade e do improviso coletivo. O frevo, tocado pelas filarmônicas, ensina escuta, coordenação e disciplina comunitária. Os sambas reafirmam ancestralidade afro-brasileira presente também nas áreas rurais, fortalecendo a ideia de que o campo não homogêneo, muito menos neutro.


Essas manifestações não são folclore, são práticas vivas de produção de sentido. É nesse ponto que o carnaval vivido no campo se revela como tempo pedagógico. Ele reconecta corpo, terra e comunidade. Afirma que território não é apenas espaço físico, mas campo de memória, de afeto e de luta.


Caldart nos ensina que a Educação do Campo não pode ser composta por práticas urbanas transplantadas para o contexto rural, mas construída a partir da vida concreta dos sujeitos do campo. Se a vida concreta pulsa no maracatu, no coco, no samba, então ali também há currículo. Adicionalmente, Arroyo nos ajuda a compreender que o currículo é um território em disputa, no qual os saberes e experiências historicamente silenciados precisam ser reconhecidos como conhecimento legítimo. A roda de coco, nesse sentido, é também uma roda epistemológica: nela, o conhecimento circula, se constrói coletivamente e se afirma na experiência vivida.


Quando a escola do campo assume essa compreensão, o carnaval deixa de ser tema ilustrativo e passa a ser eixo articulador de práticas pedagógicas inter e transdisciplinares.


Nas Ciências Humanas, o maracatu rural permite estudar a história da Zona da Mata, as relações de trabalho nos engenhos, os processos de resistência negra e camponesa, as transformações do território ao longo do tempo. É possível mapear agremiações locais, registrar memórias de mestres e mestras da cultura, discutir identidade, poder simbólico e cultura popular como forma de organização social.


O diálogo com os ciclos agrícolas é imediato e inerente às Ciências da Natureza. Assim, podemos relacionar o período do carnaval às chuvas, às colheitas e ao calendário produtivo do campo. Os materiais das fantasias abrem caminhos para discutir origem da matéria, transformações, impactos ambientais e alternativas sustentáveis. A sonoridade dos instrumentos permite explorar vibração, frequência e propagação do som, conectando ciência e cultura.


Na Matemática, o ritmo do coco e do frevo possibilita trabalhar tempo, frações e padrões. A organização de um cortejo envolve medidas, proporções, planejamento e estimativa de custos. As golas bordadas dos caboclos de lança permitem explorar formas geométricas, simetria e repetição, sempre a partir de situações reais vividas pela comunidade.


As letras dos cocos, sambas e loas do maracatu são textos vivos e podem ser potencializados nos componentes curriculares de Linguagens. Nelas, é possível trabalhar oralidade, poesia popular, metáfora, variação linguística e memória coletiva. Entrevistas com brincantes podem se transformar em relatos, documentários, podcasts ou cordéis. O corpo em movimento também é linguagem: dança, expressão, identidade e presença no espaço.


Nas Práticas Agrícolas e Agroecológicas, o carnaval pode ser compreendido como parte do calendário do território. A escola pode investigar como o trabalho coletivo sustenta as festas, como a produção de alimentos se articula às celebrações e como saberes tradicionais dialogam com práticas sustentáveis. O cultivo de plantas para tinturas naturais, a produção coletiva de alimentos ou a organização comunitária das festas tornam-se experiências pedagógicas de cooperação e economia solidária.


Assim, o carnaval deixa de ser um momento de interrupção do aprendizado. Ele se afirma como aprendizado em movimento. Um tempo em que o tambor ensina, a roda forma, o território fala e a escola aprende com a vida que pulsa no campo



ARROYO, Miguel González. Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2013.

CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo: Expressão Popular, 2004.

CALDART, Roseli Salete et al. Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio; São Paulo: Expressão Popular, 2012.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.




Sobre a autora

Viviane Alves é mestranda em Educação, Culturas e Identidades na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Atua com Educação do Campo na Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco e é articuladora regional do Pacto Nacional pela Superação ao Analfabetismo e Qualificação da EJA, vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Desenvolve estudos e práticas voltadas às relações entre cultura, território, currículo e saberes tradicionais, com ênfase nas experiências educativas no/do campo

Colunista MUká desde fevereiro de 2026.

 
 
 

6 comentários


Lia Regina
Lia Regina
13 de fev.

Muito interessante, me deu várias ideias.

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Muito importante essa abordagem, parabéns pelo texrto. Excelente!

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Gleyson Santos
Gleyson Santos
13 de fev.

Que texto bonito e potente! Ele não só argumenta, ele mostra como a escola pode aprender com a vida que pulsa no campo. 👏🏾

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Excelente material! Super valioso para os trabalhos nas nossas turmas!

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Ótimo texto!!

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