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Feiras Agropedagógicas: Quando o currículo encontra a comunidade

Imagem criada com IA


Passados pouco mais de seis anos da instituição das Feiras Agropedagógicas, elas já se consolidaram como muito mais do que uma simples culminância de atividades escolares: representam, hoje, um espaço formativo robusto, onde o currículo, como território político e cultural, e a comunidade se entrelaçam de maneira contínua e significativa em um território de disputas, atravessado por vozes, identidades e projetos formativos que se confrontam e se afirmam.


As sementes das Feiras Agropedagógicas começaram a germinar nos solos férteis da Mata Norte de Pernambuco, em 2016, quando, ainda de forma singela e sem investimentos, aconteceram a todo vapor. Em julho de 2019[1], estudantes da Educação de Jovens e Adultos do Campo (EJA Campo) da Gerência Regional de Ensino (GRE) Mata Sul – Palmares, organizados pelas Irmãs do Centro de Treinamentos João XXIII, foram convidados a expor seus produtos agroecológicos em frente à sede da GRE Palmares, nas sextas-feiras pela manhã. Nesse momento, a experiência chamou a atenção da então Secretária Executiva de Desenvolvimento da Educação do Estado de Pernambuco, Ana Coelho Vieira Selva, e do então Secretário Estadual de Educação, Frederico Amâncio, que enxergaram naquele movimento muito mais do que uma ação pontual: viram ali uma potente proposta pedagógica, e as raízes das feiras passaram a ter sustentação estatal.


A partir desse olhar, a Secretaria Estadual de Educação (SEE/PE) institucionalizou as Feiras Agropedagógicas, que passaram a acontecer em todo o Estado, inicialmente como Feiras Agroecológicas da EJA CampoAgroecológicas[2]. Em 2020, vivemos o advento da pandemia da Covid-19; assim, apenas no ano de 2021 as GREs de Pernambuco iniciaram as primeiras edições oficiais em seus municípios estratégicos.


O protagonismo ficou por conta dos(as) estudantes dos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio das EJAs Campo e Quilombola, que, juntamente com suas equipes docentes, transformaram saberes e vivências em experiências compartilhadas com a comunidade. Desde então, a SEE/PE, por meio da Gerência de Políticas Educacionais do Campo (GEPEC), da Gerência de Educação Escolar Quilombola (GEEQ), das GREs, dos Núcleos de Educação do Campo (NECs), das escolas estaduais, dos movimentos sociais do campo e quilombola, de parceiros e das comunidades, vem fortalecendo essa ação voltada à educação das populações do campo, das águas e das florestas.


Nas Feiras, o currículo escolar se encontra com a comunidade e passa a representar um espaço de vida, de sujeitos concretos, de práticas sociais, deixando de ser prescrição e passando a ser vívido, pois seus sujeitos tensionam e ressignificam o que se entende por conhecimento escolar.

Colhemos, então, um território fértil de produção que integra o Tempo Escola (TE) / Dimensão Intraescolar (DIE) e o Tempo Comunidade (TC) / Dimensão Extraescolar (DEE), articulando saberes e vivências, fortalecendo identidades e promovendo uma educação comprometida com o desenvolvimento sustentável.


Deliciamo-nos com um currículo escolar que atravessa os muros da escola e as interações socioterritoriais e globais que interligam territórios, encontrando-se, de forma viva e pulsante, com a comunidade.


Nesse movimento, brotam passos importantes na consolidação da feira: a avaliação diagnóstica, o planejamento e as avaliações pós-feira como processos contínuos, permanentemente reconstruídos nas práticas e nas relações com o território. Há confluência entre momentos pedagógicos e práticas comunitárias que se entrelaçam para formar um ciclo contínuo de aprendizagem, fortalecendo práticas mais integradas, sensíveis ao território e alinhadas às realidades dos estudantes. Florindo com e na comunidade, a feira deixa de ser um evento isolado e passa a constituir um processo formativo, no qual cada etapa reverbera em ações mais fluidas, coerentes e conectadas.


A Feira não é mercado. É encontro! É uma forma de contracolonizar, de preservar modos de vida que, inclusive, não cabem na lógica capitalista de produtividade e acumulação. O valor não está no preço, mas na relação entre o que se produz e o que se recebe. Cada banca, cada barraca, cada produto e cada relato dos estudantes transformam-se em frutos de expressão concreta de uma aprendizagem que valoriza a agroecologia, os saberes acumulados e a identidade forjada na luta coletiva.


Assim, a feira materializa o território em disputa ao aproximar escola e comunidade, legitimando saberes historicamente silenciados. Deixa de ser apenas uma atividade pedagógica e se torna um território de trocas, pertencimento e construção coletiva, onde ciência e vida cotidiana se entrelaçam para fortalecer uma educação verdadeiramente contextualizada e transformadora.


Sobre a autora


Nádja Freire é mestranda em Educação, Culturas e Identidades pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Atua na Educação do Campo pela Gerência Regional de Ensino (GRE) Mata Sul – Palmares e integra o Núcleo de Pesquisa, Extensão e Formação em Educação do Campo da Universidade Federal de Pernambuco (NUPEFEC/UFPE). É militante do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desenvolve estudos e práticas voltadas às relações que envolvem a mulher campesina, com ênfase nas experiências educativas no e do campo.

Colunista MUká desde março de 2026.



[1] Acesso Informativo GRE Mata Sul nº 3 – link: a avaliação diagnostica, o planejamento e as considerações do pós feira.  p.05.

[2] Só em 2024, o nome da feira passou a ser Feira Agropedagógica, refletindo a ampliação do seu escopo e a diversidade de práticas e produtos apresentados. A mudança também reconhece a presença de itens em fase de transição — aqueles que estão migrando de sistemas de produção convencionais para práticas agroecológicas e que perpassam por um processo pedagógico e consciente reforçando o compromisso com processos formativos que valorizam a sustentabilidade, o cuidado com a terra e a construção gradual de modos de produzir mais saudáveis e alinhados aos princípios da agroecologia.



ALVES, V. R.. Manifestações das identidades culturais campesinas na feira agroecológica da Educação do Campo de Tacaratu e Petrolândia, Pernambuco. In: Viviane Rezende Alves; Waldênia Leão de Carvalho. (Org.). Educação do campo: experiências e práticas escolares. 01ed.Recife: Cepe - Companhia Editora de Pernambuco, 2023, v. 01, p. 39-50.

ARROYO, Miguel Gonzáles. Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2013.

ARROYO, Miguel Gonzáles; CALDART, Roseli Salete; MOLINA, Mônica Castagna (orgs.). Por uma educação do campo. Petrópolis: Vozes, 2004.

MOLINA, Mônica Castagna; ARROYO, Miguel Gonzáles; CALDART, Roseli Salete (orgs.). Educação do campo: identidade e políticas públicas. Brasília: INCRA/MDA, 2004.

PERNAMBUCO. Nota Técnica Nº 04 de 28 de outubro de 2021. Orienta a realização, aplicabilidade de recursos, locais, parcerias, logística e processo pedagógico das feiras agroecológicas dos(as) estudantes agricultores(as) familiares da Educação de Jovens e Adultos – EJA, destinada às populações do campo, nas comunidades atendidas pelas diversas Gerências Regionais de Educação nos seus respectivas jurisdições e municípios. Disponível em:

SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA,2023.

 
 
 

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