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Ser Indígena: Memória, Vida... Luta!


Direitos da imagem: Yacunã Tuxá (BA) - https://ims.com.br/convida/yacuna-tuxa/


A vida, o tempo, a coragem.

Três palavras interligadas pelo elo da profundidade do ser indígena.


A resistência em tempos difíceis para os sonhadores, como afirma Eliane Potiguara: enquanto houver um indígena vivo, haverá resistência.


A história do Brasil começa a ser contada bem antes de 1500. Ela é narrada a partir da memória dos ancestrais, a partir do sangue que foi derramado durante o processo de colonização.


É impossível dizer, hoje em dia, que não existem mais indígenas, ou que as pessoas estão “se tornando” indígenas. Ser indígena vai além do conhecimento ocidentalizado que fomos domesticados a aprender.


Ser indígena é viver, é sonhar, é sentir o pulso da memória ancestral e resistir todos os dias. É trabalhar a identidade, a memória e a denúncia dos apagamentos históricos. Para ser indígena, não é necessário apenas ter um documento ou um papel que diga quem você é. É algo que vai além disso. Precisamos aprender com os povos indígenasnão apenas ensinar sobre eles, mas compreender os processos de ancestralidade.


Ter um documento hoje pode afirmar quem você é como indígena, mas não se resume a isso: trata-se de um processo de escuta coletiva, de um trabalho de ancestralidade e de memória. É uma construção coletiva que precisa alcançar todos os espaços e atender aos anseios de uma coletividade.


Outra reflexão de Eliane Potiguara afirma que nós, povos indígenas, sempre fomos vistos como o passado, mas somos o presente e o futuro. O Brasil foi construído sob o sangue indígena, e muitas pessoas se negam a compreender a gravidade disso, pois não querem aceitar que os povos indígenas ainda estão aqui, resistindo e lutando por suas terras e por seus direitos.


Direito à escola, direito à moradia e, principalmente, o direito de ser quem se é.


Quando negamos a identidade de uma pessoa que se afirma como indígena, estamos negando a existência de um povo — estamos praticando etnocídio. E a nossa luta não é apenas pela terra, mas por dignidade, por memória e por existência. Pensar o ser indígena é pensá-lo como um ato político.


É resistência, como diz Daniel Munduruku.


Ser indígena vai além de todas essas camadas, mas precisamos focar no fato de que os povos indígenas estão aqui, resistindo, sofrendo racismo — especialmente o racismo estrutural e recreativo — e tendo suas vidas ceifadas pelo agronegócio e pelos agrotóxicos.


Como afirma Ailton Krenak, “suspender o céu” é ampliar o nosso horizonte existencial. Estamos vivendo uma crise da imaginação. A terra não é apenas um recurso do qual estamos à parte, mas algo de que fazemos parte.


Ela é um organismo vivo. Pensar sobre isso é compreender que a coletividade é o que move o ser indígena em relação à natureza. A natureza somos nós.


E, quando refletimos sobre todo esse processo de dor, também reconhecemos o processo de resistência e de alegria que surge ao ver novas sementes sendo plantadas: novas pessoas que têm a coragem de afirmar sua identidade, deixando de viver à sombra do racismo, na base da pirâmide social.




Sobre a autora


Mestra em Educação pela Universidade Federal Rural de Pernambuco em parceria com Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), do Programa de Pós-Graduação em Educação, Culturas e Identidades. Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação das Relações Étnico Raciais. Participou dos Grupos cadastrados no CNPQ: Grupo de Estudos e Pesquisas em Racismo, Antirracismo e Autobiografias - GEPAR da UFPE (2020), Núcleo ERER - Núcleo de Educação de Políticas das Relações Étnico Raciais da UFPE (2021). Participou como pesquisadora do PET Conexões Gestão Política Pedagógica, vinculado ao Ministério da Educação e à Universidade Federal de Pernambuco (2022-2023). Foi coordenadora Pedagógica do Pré-Vestibular Conexão Camará - Camaragibe/PE (2019). Certificada pela Escola de Artes de Recife como Arte Educadora (2022). Pesquisadora pela Passos Firmes - Consultoria Educacional (2024). Pesquisadora pelo Laberer/UFPE/CNPQ - Laboratório das Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolve atividades de pesquisadora nas áreas de políticas educacionais, relações de raça e etnia e políticas afirmativas. Ministrante de palestras e oficinas na área das relações étnico raciais e políticas afirmativas na educação escolar.




Referências

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo (Nova edição). Editora Companhia das letras, 2019.

MUNDURUKU, Daniel. O banquete dos deuses: conversa sobre a origem e a cultura brasileira. Global Editora e Distribuidora Ltda, 2015.

POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. (No Title), 2004.



 
 
 

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